25 de abr de 2011

SABER FALAR
Se, por um lado, a natureza, sem discriminar nossas condições sociais, regionais e econômicas, nos dotou de uma capacidade para falar, por outro lado, o homem, com toda sua “sabedoria” e capacidade classificatória, nos dividiu em dois grupos de falantes: os “bons” e os “maus”. No grupo dos bons falantes, costumam ser colocados aqueles que têm um vocabulário mais rico e diversificado, que dominam uma gramática mais formalizada, mais culta, que são capazes de fazer concordâncias com maior precisão e que apresentam uma fala com “todos os erres e com todos os esses”, conforme dito popular. Em outras palavras, geralmente as pessoas consideradas como bons falantes são aqueles que apresentam graus mais elevados de letramento e de influência de padrões da linguagem escrita sobre seus padrões de oralidade. Isto quer dizer que há uma tendência de se incorporar, na oralidade, uma série de aspectos e formalidades que vêm da escrita. Portanto, chegar a ter uma “boa fala”, não é um pré-requisito indispensável para aprender a escrever bem. Na realidade a “boa fala” é conseqüência de um longo processo de letramento que pode vir a produzir modificações na linguagem oral. Isto significa que alguém que venha de um meio letrado e que tenha oportunidade de atingir graus mais elevados de educação é um forte candidato a participar deste grupo. Não precisamos lembrar que essas condições são fortemente dependentes de fatores sociais e econômicos. Pensando em termos de toda a população, somente uma minoria terá acesso a elas. Essas circunstâncias especiais levam a “boa fala” a ser vista como uma marca de prestígio, que diferencia, no caso favoravelmente, as pessoas: elas são cultas, inteligentes, bem instruídas, letradas e daí por diante.
Dada tal divisão, o grupo dos “maus falantes” ou dos que falam “errado”, por sua vez, apesar da impropriedade do termo, deveria, teoricamente, estar reservado àqueles que, por alguma razão, encontram limitações reais que comprometem suas capacidades de compreensão e expressão da linguagem. Este seria o caso, por exemplo, de alterações neurológicas, mentais, anatômicas, e tantas outras. Entretanto, tal grupo se caracteriza por uma grande elasticidade, englobando qualquer um que não fale de acordo com os princípios da norma considerada culta, e esse é o caso de muitas variantes lingüísticas, de diferentes regiões, que compõem a chamada “língua portuguesa”. Dessa forma, vemos uma tendência marcante e explícita de se considerar, como pessoas que falam errado, que são maus falantes, aquelas que apresentam um padrão lingüístico de determinadas regiões, principalmente as que são pobres. Como tal, esses padrões são marcados pelo desprestígio: a pessoa é considerada intelectualmente inferior, analfabeta, inculta, iletrada, ou seja, carrega consigo as marcas de sua origem social, econômica, geográfica e cultural. E o que é mais curioso, aqueles que são colocados neste grupo são julgados, muitas vezes, como se fossem os responsáveis pela própria condição, como se, pobreza e analfabetismo fossem uma questão de opção de vida.



Existe, portanto, uma tendência de se considerar certas formas de linguagem como superiores porque são tidas como melhores e mais sofisticadas e outras de serem consideradas inferiores, imperfeitas, marcadas por muitos erros. Tenho constatado, com uma freqüência muito alta, este tipo de crença em meus encontros com educadores, e também, para minha surpresa, entre alguns fonoaudiólogos que parecem não estar bem preparados para distinguir entre o que é patologia e o que é variação lingüística ou regionalismo.
Deveria estar claro que todas as línguas apresentam variações. Não há língua homogênea. Mesmo em países pequenos pode-se encontrar uma grande número dos chamados dialetos. Não há homogeneidade nas línguas, elas se caracterizam pela diversidade, que tem raízes históricas. Por exemplo, o inglês falado nos Estados Unidos é diferente do inglês da Inglaterra. Na própria Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, não existe um padrão único de inglês. No Brasil encontramos variações no português determinadas pela própria colonização. Por exemplo, o português do sul teve forte influência da imigração alemã e italiana. O português do nordeste parece ter sofrido maiores influências dos índios, negros e portugueses. Enfim, estas variações permitem identificar o falante em termos da região da qual procede, assim como seu possível nível
econômico e de instrução. Em todo o mundo temos o mesmo fenômeno das variações. E também em todo o mundo encontramos determinados padrões que são tomados como cultos, ou seja prestigiados e outros tomados como incultos, que são desprestigiados.
É importante que se compreenda que maior ou menor prestígio não significa língua superior ou inferior. O prestígio é marcado por condições de poder econômico e cultural de um grupo ou região e estas podem ser temporárias. Não há, em termos de língua, superioridade ou inferioridade. Todas as línguas, em todas suas formas e variações, cumprem perfeitamente seu papel de permitir a comunicação entre as pessoas. Da mesma maneira, uma criança, ao assimilar a língua do ambiente no qual vive, dá mostras de que tem uma boa capacidade lingüística, independentemente do prestígio da língua que ela está aprendendo. Diremos que a criança tem uma dificuldade de fala ou linguagem quando não consegue adquirir, adequadamente, a língua falada por
sua comunidade, e não outra variante qualquer que possa estar sendo considerada como a ideal ou como a melhor.




A ADEQUAÇÃO Á REALIDADE
Muitas crianças chegam à escola correndo o risco de serem marcadas como mau falantes, portadoras de uma linguagem inferior, uma vez que aquilo que os educadores tendem a valorizar é uma linguagem idealizada e formalizada: a “língua culta” ou “padrão”. Tomada como uma espécie de pré-requisito para o domínio da língua escrita, essa é a linguagem que se espera que o aluno tenha para poder ter sucesso na alfabetização. Como já apontamos, aqui reside um grande engano. O acesso a essa língua mais elaborada ou normatizada torna-se possível com o letramento. Dessa forma, se o que se deseja é que as crianças possam vir a dominar esse padrão lingüístico, não é
o tipo de regionalismo ou variante lingüística com a qual o aluno chega na escola que deve ser a grande preocupação, como se isto fosse um fator realmente limitador da escolarização. Deve-se prestar atenção e investir naquilo que realmente é fundamental: garantir programas que levem em conta a realidade lingüística e as histórias de vida das crianças. E acima de tudo, programas que realmente atinjam metas em termos de ensino, que se preocupem em garantir conteúdos para serem expressos numa “boa linguagem”.


Essa é a nossa realidade. Um país muito grande, com muitas diferenças do ponto de vista lingüistico, social, cultural, econômico. Nosso grande problema, na realidade, não deveria ser o de ter que lidar com as diferenças. Infelizmente, o nosso grande problema é não haver uma real mobilização no sentido de diminuir as desigualdades, principalmente econômicas. As ações educacionais não podem se limitar à simples escolha de métodos. Elas devem ser políticas, no sentido de promoverem mudanças de atitudes e de objetivos. Tem que haver uma valorização da educação porque ela pode ser uma das grandes armas para a melhoria da condição social e econômica.




A educação necessita de investimentos, entre eles, obviamente, encontram-se prédios e equipamentos. Mas acima de tudo, necessita de professores melhor preparados, que compreendam o que é alfabetizar, o que é linguagem, o que é variação e o que pode vir a ser um real distúrbio, principalmente para ser capaz de preveni-los. Que saibam lidar com o que estamos chamando de diferenças e que estejam equipados, do ponto de vista de conhecimentos, para desenvolver programas que possam “estimular” efetivamente a aprendizagem e o uso da escrita e da leitura e, dessa forma, também fornecer, de modo continuado, novos modelos que podem ser incorporados à linguagem oral.



O PAPEL DOS FONOAUDIÓLOGOS
Uma pergunta que pode ser feita é o que os fonoaudiólogos têm a ver com a educação? Tenho visto muitas pessoas respondendo que a relação está no fato de que existem crianças que apresentam dificuldades em termos de linguagem oral e que isso interfere na alfabetização, ou que apresentam certas alterações na escrita envolvendo erros de natureza auditiva, por exemplo, e que deveriam ser tratados por este profissional. Também tenho visto argumentos a respeito da importância das “triagens fonoaudiológicas” para detectar e prevenir problemas que futuramente podem interferir na aprendizagem escolar. A rigor, essa atuação do fonoaudiólogo não é educacional, ela é clínica, predominantemente. É o conhecimento clínico voltado para atender problemas encontrados dentro das escolas. Isso é fonoaudiologia clínica e não educacional, que
acaba restringindo as reais possibilidades de atuação do fonoaudiólogo no meio escolar. Eu diria que o fonoaudiólogo tem que pensar grande. Ele tem que fazer com que sua ação possa chegar a milhares de alunos. Obviamente não ficará atuando terapeuticamente com cada um deles. Irá atingi-los por meio de programas de desenvolvimento de linguagem, dos quais ele pode participar na elaboração. E sua ação deverá ser benéfica não só para aquele que eventualmente possa ter um problema, mas para todos, partindo-se do princípio de que qualquer um, por melhor que seja, pode
melhorar, ainda mais, suas habilidades em linguagem, quer oral, quer escrita.

Pensando desta forma, sinto-me muito confortável e seguro para dizer que temos muito a ver, e de várias outras formas que não se limitam a uma visão clínica e patologizante da educação. Deve ser lembrado que a escola tem por objetivo o ensino do cálculo, das ciências e da linguagem. Com relação à linguagem há um fato curioso porque ela será, ao mesmo tempo, objeto de aprendizagem e meio para garantir a aquisição de outros conhecimentos. Portanto, a linguagem tem uma posição central dentro da educação: faz parte fundamental do programa como algo que deve ser ensinado, principalmente na forma escrita, via alfabetização e, ao mesmo tempo, serve como o
instrumento pelo qual o aluno poderá ter acesso a outros conhecimentos: a criança precisa aprender a linguagem para, por meio da linguagem, aprender.
A importância de programas visando o desenvolvimento da linguagem oral e escrita fica mais do evidente. Entretanto, sabemos que linguagem não se aprende, simplesmente, estudando livros de gramática. Podemos saber muito sobre gramática e não sermos capazes de elaborar um texto ou de compreender, via leitura, algo um pouco mais complexo. Habilidades de linguagem desenvolvem-se em situações de uso real, por meio das funções sociais que elas podem desempenhar. Todas as crianças necessitam vivenciar situações que permitam aprimorar habilidades que já possuem e desenvolver novas capacidades. A escola deve ser um local privilegiado para que isso aconteça, principalmente quando pensamos em crianças como William que nela teriam a grande
oportunidade para aprender novas coisas as quais, fora da escola, não teriam acesso.


Gostaria de terminar este texto reafirmando minha crença na atuação do fonoaudiólogo no âmbito escolar. Como profissional voltado para favorecer o desenvolvimento lingüistico ele deve preparar-se de modo mais específico para um trabalho numa perspectiva educacional. A educação carece deste tipo de conhecimento para poder levar adiante, de forma mais apropriada, seus objetivos. Já vemos um certo reflexo desta atuação na medida em que, fonoaudiólogos, trabalhando com uma nova visão, não clínica, começam a sistematizar propostas nesta área que denominamos de
fonoaudiologia escolar ou educacional.



Texto extraido do artigo:

ZORZI, J. L. A aprendizagem da leitura e da escrita indo além dos distúrbios. CEFAC, 2001.