22 de jan de 2010

Adaptação: o fim de cinco mitos

Revista Nova Escola - Edição 005 | Dezembro 2009/Janeiro 2010

Para acabar de vez com velhas crenças sobre os primeiros dias dos pequenos na escola

Gustavo Heidrich (gustavo.oliveira@abril.com.br)

Crianças chorando e pais ansiosos. Esse é o cenário que se vê todo início de ano nas portas de creches e pré-escolas. O momento é tenso para eles e também para o professor, que, sem a exata compreensão sobre o que se passa com os pequenos, tenta a qualquer custo fazer com que eles se sintam à vontade no novo ambiente.

Para o coordenador pedagógico, as últimas semanas do ano ou a primeira antes do início das aulas são momentos ideais para ajudar a equipe a se preparar para essas situações. Um bom caminho é, nas reuniões de formação, promover discussões para derrubar alguns mitos que rondam o período de adaptação. Por isso, elegemos cinco ideias que caíram no senso comum e certamente estão na cabeça dos professores para que se tornem pauta dos encontros. Com as informações sobre os mitos que estão a seguir, será possível desconstruí-los, mostrando o que acontece com as crianças. Dessa forma, os professores terão mais segurança ao agir e certamente terão mais sucesso na integração da criança à escola sem traumas.

Débora Rana, coordenadora pedagógica da Escola Projeto Vida, em São Paulo, explica que, ao sair do ambiente familiar, a criança aos poucos deixa a fase de anomia, que é o desconhecimento das regras sociais, e passa para a heteronomia, ou seja, começa a reconhecer as normas de convívio, mas ainda não as incorpora. A adaptação, portanto, nada mais é do que uma passagem bem marcada da primeira para a segunda fase. "O processo é demorado e somente ao longo da vida ela chega à autonomia, tornando-se responsável pelos seus atos."

Já para os pais, o momento é mesmo de nervosismo e apreensão: "Eles ainda não têm total confiança na escola e precisam de informações para se sentirem seguros", afirma Cisele Ortiz, formadora do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. É preciso saber lidar com os familiares, pois eles são importantes no processo de aprendizagem. Cabe ao coordenador pedagógico intermediar a relação entre a escola e os pais, suprindo-os com os dados necessários sobre a rotina e a interação dos filhos com as propostas pedagógicas.

Mito 1
Criança que não compartilha brinquedos não está adaptada


Ilustrações: Guazzelli
"Você tem de dividir o brinquedo com seu amiguinho." "Isso não é seu, empreste para ele." Frases como essas são comuns em uma sala de Educação Infantil. Para a criança, muitas vezes, elas podem soar como uma ordem, uma obrigação, causando choro e recusa. "Aos olhos dos adultos, a negação da criança em dividir é vista como egoísmo", esclarece Débora Rana. Criar uma situação ameaçadora, aumentando o tom de voz ou sugerindo uma punição caso a criança não divida ou colabore com um colega, não é o caminho.

O que acontece Nos primeiros anos de vida, a criança encontra-se num momento autocentrado do seu desenvolvimento e desconhece as regras de convivência social. A compreensão do sentido e do prazer de compartilhar virá posteriormente, depois de um processo mais amplo de reconhecimento do outro.

Como orientar os professores Nas reuniões de formação, leve referências teóricas sobre as fases de desenvolvimento das crianças e seus comportamentos, como os estudos do educador francês Jean Piaget (1896-1980). O trabalho com estratégias de partilha e colaboração pode ser facilitado se o professor for orientado a montar em sala grupos menores, com duas ou três crianças, e a promover combinados - como o de que a criança pode ficar com um brinquedo por certo tempo, mas que depois deve cedê-lo ao colega. Agir de maneira firme e ao mesmo tempo acolhedora, a fim de mediar os conflitos e não negá-los ou resolvê-los de forma impositiva, é outra dica. Na hora do impasse, o ideal é expor o conflito e descrever para a criança as consequências de querer o objeto só para ela. Além disso, incentivar que elas verbalizem o que estão sentindo e encontrem soluções em conjunto ajuda no processo de mudança de atitude.

Mito 2
Criança adaptada é extrovertida e participativa


Ilustração: Guazzelli
Durante uma brincadeira de roda, a turma está toda junta, cantando. Apenas uma criança olha para o teto, cantarola baixinho alguns versos e não interage com as outras. A professora chama a atenção: "Cante mais alto! Você está triste? Por que nunca participa?" Certamente, quem age assim pensa que está incentivando a interação. Contudo, pode ocorrer o efeito contrário. "O mais adequado é se perguntar qual estratégia seria melhor para que a criança responda às atividades", diz Ana Paula Yasbek, coordenadora pedagógica do Espaço da Vila, em São Paulo. Elogiar apenas os alunos mais participativos aprofunda o sentimento de não-pertencimento.

O que acontece Existem as crianças extrovertidas, como também as tímidas. O respeito à personalidade de cada uma é essencial para o processo de adaptação e o direito à timidez precisa ser assegurado.

Como orientar os professores As estratégias para integrar as crianças devem ser procuradas pelo conjunto de educadores - e, certamente, com a ajuda dos pais. Para tanto, uma entrevista do coordenador pedagógico com os familiares sobre as preferências dos filhos é fundamental. Esse material será cruzado, durante a formação, com os registros de classe, relatórios de adaptação e portfólios. O que está sendo proposto atende às necessidades da criança? É possível também fazer visitas à sala ou gravar vídeos para perceber as práticas que funcionam melhor para cada criança e para o grupo.

Mito 3
Na Educação Infantil, todos precisam ser amigos


Ilustração: Guazzelli
"Que coisa feia! Dá a mão para o seu colega." Fazer com que as crianças se tornem amigas não é tarefa da escola, mas ensinar a conviver é um conteúdo imprescindível na Educação Infantil. Nem crianças nem adultos são amigos de todas as pessoas que conhecem e não por isso a convivência pessoal ou profissional é inviável. O papel do professor é incentivar e valorizar o que as crianças têm em comum. A escolha sobre com quem elas desejam ter uma relação mais próxima é absolutamente dela.

O que acontece No período de adaptação, primeiro há a criação do vínculo para que o trabalho escolar aconteça. Ele deve estar baseado no respeito entre as crianças e entre elas e os professores. Aos poucos - e naturalmente -, a afetividade vai sendo construída baseada nas afinidades dentro do grupo.

Como orientar os professores Os educadores devem intervir apenas quando a amizade prejudica a participação nas atividades (por exemplo, quando uma criança só quer ficar com alguns colegas e se isola do coletivo). A professora precisa ser orientada a desenvolver um olhar atento sobre as situações ideais para explorar os gostos comuns em favor da aprendizagem. Nos encontros de formação, invista na criação de oportunidades para que os pequenos se apresentem e falem dos seus objetos preferidos e discuta as situações reais que acontecem em sala.

Mito 4
Quando estão integrados ao grupo, os pequenos não choram mais


Ilustração: Guazzelli
Basta chegar à escola que as lágrimas aparecem. Se a mãe vai embora, elas aumentam. Na hora de brincar, de comer, de ler, choro. Muitos professores ficam desesperados e tentam distrair a criança mostrando imagens ou arrastando-a para um canto com brinquedos. Um engano, pois essa atitude pode atingir o objetivo imediato - que é acabar com o choro -, mas não resolve o problema.

O que acontece "Essa manifestação é apenas um sintoma do desconforto da criança", afirma Débora Rana. Interpretar esse e outros sinais - como inapetência e doenças constantes - é fundamental durante a adaptação. O que eles significam? Por outro lado, a ausência do choro não quer dizer que a criança está necessariamente se sentindo bem: o silêncio absoluto pode ser um indicador de sofrimento.

Como orientar os professores Uma criança que passa longos períodos chorando necessita de acompanhamento mais próximo. Na falta de auxiliares, ele pode ser feito pelo próprio coordenador até a criança se sentir mais segura. Ajuda também ter um plano para receber bem as crianças na primeira semana de aula. O uso de tintas, água e brincadeiras coletivas variadas é um exemplo de práticas atraentes que ajudam os pequenos a se interessar pelo novo espaço. Fazer com os professores uma orientação programada para que as crianças tragam objetos de casa - como fraldas, panos e brinquedos, que vão sendo retirados paulatinamente - auxilia a reduzir a insegurança.

Mito 5
A presença dos pais nos primeiros dias só atrapalha a adaptação


Ilustração: Guazzelli
Na porta da sala, uma dezena de pais se acotovela querendo ver os filhos em atividade. A cena, pesadelo para muitos professores de Educação Infantil, que não sabem se dão atenção às crianças ou aos adultos, é representativa de um elemento essencial para que a adaptação aconteça bem: a boa integração entre a família e a escola, que deve acontecer desde o começo do relacionamento.

O que acontece Nem todo pai ou mãe conhece as fases de desenvolvimento da criança e as estratégias pedagógicas usadas durante a adaptação. Eles têm direito de ser informados e essa troca é fundamental na transição dos pequenos do ambiente doméstico para o escolar. A ansiedade dos pais vai diminuir à medida que a confiança na escola aumenta - e isso só acontece quando há informações precisas sobre a trajetória dos pequenos.

Como ajudar os professores É função do coordenador pedagógico acolher as famílias, fazer entrevistas para conhecer a rotina da criança e explicar o funcionamento e a proposta pedagógica da escola, além de estabelecer um combinado sobre a permanência dos pais na unidade durante a adaptação. Criar juntamente com os professores um guia de orientação para eles com dicas simples - como conversar com a criança sobre a ida à escola, a importância de levá-la até a sala e de chegar cedo para evitar tumulto - pode evitar problemas. Além disso, desenvolver um relatório de distribuição periódica, com informações sobre os progressos na aprendizagem e na socialização das crianças ajuda a aplacar a ansiedade dos pais.




Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
A Construção do Real na Criança, Jean Piaget, 392 págs., Ed. Ática, tel. (11) 3990-1777, 36,90 reais
Os Fazeres na Educação Infantil, Maria Rosseti e outros, 208 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 43 reais
Manual de Educação Infantil, Anna Bondioli e Suzanna Mantovani, 356 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 3027-7000, 66 reais


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/coordenador-pedagogico/adaptacao-fim-cinco-mitos-educacao-infantil-515710.shtml

19 de jan de 2010

Ler em voz alta ajuda a memorizar

Estudo com crianças de 8 a 9 anos de idade compara eficácia da memorização de textos
Ricardo Zorzetto (www.unifesp.br)


A leitura de textos em voz alta pela própria criança é a melhor modalidade lingüística para ajudar a memorização e, conseqüentemente, a aprendizagem no início da idade escolar.
É o que sugere um estudo que avaliou estilos de linguagem que facilitam a memorização em crianças, tese de doutorado que a fonoaudióloga Zilca Rossetto de Moraes defendeu no Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana da Unifesp. Esse é um dos primeiros trabalhos do país sobre a memorização pelo reconto de uma história a partir de diferentes estilos de linguagem.
Conscientizar os professores - Segundo a pesquisadora, o objetivo do estudo é divulgar aos professores o estilo mais eficiente para a memorização, principalmente para alunos das primeiras séries do ensino fundamental. "É importante conscientizar os professores de que, segundo a disciplina, deve ser usado um estilo de linguagem diferente", diz.
A pesquisa, realizada em duas etapas, avaliou alunos da terceira série do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de Santa Maria (RS), com idades de 8 e 9 anos.
Fases da pesquisa - Numa primeira fase, 80 crianças participaram de um teste para selecionar uma entre quatro histórias que seria usada para o estudo. A história escolhida foi "O Urubu e as Pombas", que integra uma bateria de testes neuropsicológicos infantis. Na segunda parte, Zilca aplicou essa história a outras 80 crianças, divididas em quatro grupos de 20, usando em cada um deles um estilo diferente de linguagem.
No primeiro grupo, a história era lida em voz alta pela criança. No segundo, o aluno lia em silêncio. Em outro estilo, a pesquisadora lia a história para as crianças. E, no último, Zilca contava a história sem ler. Em todos os casos, as crianças tinham de recontar a história, para mostrar a capacidade de memorização.
Os resultados do estudo apontaram que os estilos mais eficientes foram a leitura em voz alta e a silenciosa, ambas feitas pela criança.
Na leitura em voz alta feita pela criança, os alunos lembravam em média 6,85 orações das 14 que compunham a história. Quando a criança lia em silêncio, ela era capaz de lembrar 6,03 orações.
Melhor desempenho - Segundo Zilca, que é professora do Departamento de Otorrinofonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria (RS), o melhor desempenho no caso da leitura pelo próprio aluno em voz alta decorre do fato de, além de haver o estímulo visual, ocorrer a utilização do estímulo auditivo, que reforça os processos de integração e evocação do texto lido.
O pior desempenho ocorreu quando a pesquisadora lia a história para os alunos: as crianças recordavam apenas 3,61 orações. "Embora esse último não favoreça a memorização, ele é muito usado nas escolas", afirma Zilca.
Na opinião da fonoaudióloga, os resultados são importantes porque mostram que a adoção de determinado estilo de linguagem poderia ajudar a reduzir a dificuldade de aprendizado e a diminuir índices de reprovação e evasão escolar.

O Urubu e as Pombas
"Um urubu ouviu dizer que na casa das pombas havia muita comida. Ele se pintou de branco e voou até a casa das pombas. As pombas acharam que ele era uma delas e deixaram ele entrar, mas ele continuou a gritar como um urubu. As pombas descobriram que ele era um urubu e o expulsaram. Ele tentou se juntar novamente aos urubus, mas estes não o reconheceram e não o aceitaram."
(História retirada da bateria de testes neuropsicológicos de Luria Nebraska, adaptada e traduzida para o português)


"Era um urubu e daí ele entrou na casa. Ele era um urubu e daí expulsaram ele. Daí ele se juntou com os outros urubu e os outros urubu não reconheceram e não quiseram ficá com ele."
Versão de quem ouviu a leitura da história.


"Tinha um urubu, ele foi lá, que tinha comida das pomba, ele foi lá. Aí as pomba pensaram que ele era uma pomba também e daí elas deixaram ele entrá. Aí depois, depois que elas descobriram e deram comida delas pra ele também. Depois que elas descobriram que ele era um urubu, daí elas não quiseram mais ele. Daí depois ele tentou entrá na casa dos urubu de novo e ninguém quis ele..."

Versão de quem fez leitura silenciosa.


"O urubu, ele ouviu dizê que as pombas tinham muita comida na casa delas e daí ele se pintou de branco e voou prá lá. As pombas pensaram que ele era um urubu. Elas pensaram que era uma pomba e daí as pombas aceitaram. Daí ele continuou a gritar como um urubu, daí as pombas descobriram. Daí expulsaram e ele tentou voltar aos urubu e não reconheceram e não aceitaram."
História recontada por criança que leu texto em voz alta.